quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A classificação dos embriões humanos

Há dois aspectos muito importantes que podem condicionar a gestação em seres humanos: a receptividade do endométrio da mulher e a qualidade dos embriões. Longe de estarem bem estudados estes dois factores, tem sido objecto de vários estudos e publicações.

Como embriologista, reparo que uma das questões que mais preocupa os casais durante os tratamentos de fecundação in vitro é a qualidade dos seus embriões. Mais concretamente, como classificaríamos esses embriões.

Como foi feito o sistema de classificação de embriões?
O sistema de classificação de embriões contribui para que haja uma unificação de critérios entre os vários centros de procriação medicamente assistida.

Este sistema de classificação dos embriões foi feito com base na análise de milhares de embriões e no seu potencial de implantação. Baseia-se apenas em parâmetros morfológicos dos embriões e de divisão embrionária e não faz qualquer análise genética dos mesmos. Há várias classificações de embriões, uma delas, baseada nos critérios de ASEBIR (Asociación para el estúdio de la Biologia de la Reproducion) em que os embriões são classificados de A a F, sendo os embriões de melhor qualidade e com maior probabilidade de implantar os embriões A e os de pior qualidade os embriões F.

Para que serve a classificação dos embriões?
A classificação dos embriões é algo subjectivo mas que de facto nos ajuda enquanto profissionais a selecionar os melhores embriões para transferir para a cavidade uterina ou para congelar, mas que não nos pode indicar com 100% de garantia se aqueles embriões vão dar origem a gravidez.

Quais os parâmetros utilizados na classificação dos embriões?
Geralmente os embriões que escolhemos para transferir para a cavidade tem três dias de vida (D3) ou cinco dias (D5). Os parâmetros utilizados para classificar este tipo de embriões são totalmente diferentes. Enquanto que um embrião com três dia de vida, ainda se encontra em fase de células, um embrião com cinco dias, apresenta já uma estrutura complexa na qual não é possível diferenciar o número de células e nesse caso, os parâmetros utilizados são a aparência de massa celular interna (que vai dar origem ao embrião) e a trofoectoderme que vai mais tarde originar a placenta.

Os parâmetros utilizados para classificar os embriões humanos na etapa de células são os seguintes:

  • - Nº de células (este é talvez o parâmetro mais objectivo de todos!);
  • - Simetria das células (o ideal é que as células tenham o mesmo tamanho);
  • - % de fragmentos (os fragmentos são porções do citoplasma que são excluídos da célula)
  • - Tipo de fragmentos (se estão localizados ou dispersos no embrião);
  • - Multinucleação (o ideal é que cada célula tenha apenas um núcleo, caso tenha mais dizemos que o embrião tem multinucleação).
Passo a explicar alguns exemplos de embriões com 3 dias de vida:

(1) Embrião ideal em D3 com 8 células
Na figura (1) podem ver um embrião ideal em D3 com 8 células, todas elas simétricas, e sem fragmentos. À partida seria um embrião de qualidade A (esta classificação depende também da morfologia do embrião com dois dias de vida).






(2) Embrião com vários fragmentos e células assimétricas;
Na imagem da direita (2), podem observar um embrião com vários fragmentos e com células assimétricas. Além disso este embrião apresenta um número de células aquém do desejável para o terceiro dia de vida. Será um embrião de qualidade D.





(3) Embrião com células muito maiores do que as outras
Já este embrião, figura (3) , apresenta umas células muito maiores do que as outras, o que também não é o ideal. O mais certo é que não tenha ocorrido uma divisão correcta de uma das células. Será classificado como embrião de qualidade C.


Para concluir, queria referir que a classificação dos embriões é meramente orientativa e não nos permite explicar porque é que determinados embriões de muito boa qualidade não dão origem a gravidez, enquanto que outros de muito pior qualidade implantam. Seriam necessários mais dados como por exemplo a análise genética dos embriões.